14 Janeiro 2026

Relatório ARI Cultura 2025: Um Ano Histórico para o Setor

Portugal testemunhou, em 2025, um crescimento sem precedentes no investimento cultural através do programa de Autorização de Residência para Atividade de Investimento (ARI) Cultura. Os dados mais recentes revelam que este mecanismo se consolidou como uma ferramenta vital para a preservação do património e para a dinamização das artes no país.

 

Introdução: Um Ponto de Inflexão

O ano de 2025 ficará marcado pelo maior volume de projetos apoiados desde a criação do ARI Cultura. Após um período de crescimento moderado, as Declarações de Elegibilidade para investimento cultural registaram um salto exponencial, posicionando o programa como um dos principais motores de captação de capital para o setor.

  1. O “Boom” Estatístico de 2025

Os números são inequívocos: das 87 declarações de elegibilidade emitidas entre 2020 e 2025, 51 foram concedidas apenas no decorrer de 2025, o que representa 58,6% do total histórico do programa. O mês de agosto de 2025 destacou-se como o período de maior atividade, com a emissão de 16 declarações.

No que concerne ao valor financeiro, o impacto é ainda mais evidente:

  • O investimento total acumulado desde 2020 ascende a 66,4 milhões de euros.
  • Deste montante, 46,8 milhões de euros (70,5%) foram captados exclusivamente em 2025.
  1. Património vs. Produção Artística: Destino do Investimento

O programa divide-se em duas grandes áreas, com o património a concentrar a maior fatia do investimento:

  • Recuperação ou Manutenção do Património Cultural Nacional: Representa 53% das candidaturas (46 declarações) e 64,7% do valor investido (42,9 milhões de euros).
  • Produção Artística: Corresponde a 47% das candidaturas (41 declarações) e 35,3% do valor total (23,4 milhões de euros).
  1. Geografia dos Investimentos: O Norte na Liderança

A distribuição regional revela um país a várias velocidades, com um destaque inequívoco para a região Norte:

  • Norte: Lidera com 44,8% das declarações e o maior volume de investimento (27 milhões de euros).
  • Grande Lisboa: Ocupa o segundo lugar, com 26,4% das candidaturas.
  • Centro: Representa 20,7% do total de declarações emitidas.
  1. Tipologia de Investimento: O Equilíbrio da Densidade

O investimento distribui-se entre zonas de densidade urbana regular e zonas de baixa densidade, evidenciando a capacidade de atrair capital para além dos grandes centros:

  • Tipologia 1: Concentra a maioria do investimento, com 38.200.846,81 € (57,5%).
  • Tipologia 2 (Baixa Densidade): Garante uma parcela significativa de 28.200.100,00 € (42,5%).

Este equilíbrio demonstra que quase metade do capital captado está a ser canalizado para o interior ou áreas economicamente menos densas, promovendo a coesão territorial através da cultura.

  1. Conservação do Passado como Prioridade

A análise do destino final dos fundos revela que a preservação do legado histórico português é a principal motivação dos investidores:

  • Património Cultural: Esta área absorve 64,7% do capital, permitindo a reabilitação de monumentos, edifícios históricos e museus.
  • Produção Artística: A criação contemporânea e as artes performativas ou visuais captaram 35,3% do investimento, assegurando uma dinâmica essencial para a vitalidade artística atual.
  1. Perfil dos Investidores: A Supremacia dos “Big Three”

O pódio do investimento é dominado por três potências que, em conjunto, representam mais de 77% do capital total:

  1. Estados Unidos (43,1%): Com 28,6 milhões de euros, são os principais mecenas internacionais.
  2. China (23,9%): Mantém a tradição de investimento com 15,8 milhões de euros.
  3. Índia (10,2%): Consolida-se como um mercado emergente vital, com 6,7 milhões de euros.

 

Conclusão: 2026 O que esperar?

Os resultados de 2025 demonstram que o ARI Cultura evoluiu de um programa marginal para um pilar estruturante na preservação da memória e na criação contemporânea em Portugal. O amadurecimento deste mercado é visível na concentração de investimento em instituições de referência e na aposta contínua na recuperação patrimonial.

Para 2026, perspetiva-se que o programa continue a ser um instrumento fundamental para viabilizar projetos que, de outra forma, enfrentariam maiores dificuldades de financiamento.

É, por fim, imperativo sublinhar o papel crucial das fundações no desenvolvimento, promoção e inovação cultural do país.

 

Ricardo AP Garcia

 


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