29 Outubro 2026

PERSPETIVAS EM DESTAQUE

Rita Silva Costa | Presidente do Conselho Executivo da Fundação Bom Sucesso

1. A ambição da conferência

A Fundação Bom Sucesso assinala 75 anos de atividade e promove a conferência “Em Rede pelos Primeiros Anos”. O que vos levou a organizar este encontro e qual é a principal mensagem que gostariam de transmitir à sociedade portuguesa?

Ao assinalar 75 anos, a Fundação Bom Sucesso quis valorizar o seu percurso, mas, sobretudo, projetar o futuro. Desde 1951, trabalhamos a partir de uma convicção que permanece atual: é mais eficaz prevenir do que tratar a doença. Hoje sabemos, com uma base científica cada vez mais sólida, que a gravidez e os primeiros anos de vida constituem uma janela decisiva para a saúde, desenvolvimento e oportunidades futuras de cada criança.

Foi desta convicção, mas também da experiência de colaboração que temos vindo a construir, que nasceu a conferência “Em Rede pelos Primeiros Anos: Inspirar. Informar. Agir.”. A Fundação Bom Sucesso coordena a Rede de Parceiros pelos Primeiros Anos, uma rede nacional que reúne entidades públicas, privadas e do setor social em torno de um objetivo comum: afirmar a importância dos primeiros anos de vida e promover uma abordagem mais integrada e multissetorial ao desenvolvimento infantil.

Hoje o grande desafio é transformar esse conhecimento em ação, aproximando a ciência, a experiência dos profissionais e das organizações que trabalham diariamente com as crianças e as famílias, e a decisão política. É precisamente essa a ambição da conferência: inspirar através do conhecimento e de boas práticas, informar com base na evidência e, sobretudo, mobilizar para agir, contribuindo para respostas mais articuladas, consistentes e com continuidade.

A principal mensagem que queremos deixar à sociedade portuguesa é, por isso, muito clara: nenhuma instituição, isoladamente, consegue responder à complexidade das necessidades das crianças e das suas famílias. Trabalhar em rede significa agregar as respostas do Estado, autarquias, setor privado, terceiro setor, fundações, academia e sociedade civil, sem excluir ninguém e reconhecendo o valor de cada contributo.

Mais do que substituir respostas, precisamos de conjugar competências, conhecimento e recursos em torno de um propósito comum: garantir a todas as crianças as melhores condições para crescerem, desenvolverem o seu potencial e construírem o seu futuro.

2. A urgência de investir na infância

Apesar da evidência científica sobre a importância dos primeiros anos de vida, continuamos a enfrentar desigualdades no acesso à saúde, à educação e ao acompanhamento das famílias. Onde considera que Portugal está a falhar e o que é mais urgente mudar?

Portugal realizou progressos extraordinários na saúde materna e infantil, alargando o acesso aos cuidados e consolidando respostas clínicas de grande qualidade. No entanto, continuamos frequentemente a chegar tarde. As dificuldades de acesso, os tempos de espera e a falta de articulação entre serviços podem atrasar a prevenção e a intervenção precoce.

As desigualdades em saúde também não se explicam apenas pela existência ou disponibilidade de cuidados. O recente ensaio “Desigualdades em Saúde”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, chama a atenção para o peso dos contextos sociais, da educação, da região e da própria capacidade dos cidadãos para utilizarem o sistema de saúde. Na infância, estas desigualdades são particularmente relevantes, porque as oportunidades de uma criança estão profundamente ligadas às condições e aos recursos da família em que nasce e cresce. Estamos, por isso, a falhar quando são as próprias famílias que têm de ligar aquilo que o sistema mantém separado, procurando consultas, repetindo informação e tentando articular, sozinhas, respostas da Saúde, da Educação e da área Social.

O mais urgente é reforçar a prevenção, os cuidados de saúde primários, a literacia e o apoio às famílias, assegurando simultaneamente uma melhor partilha de informação e articulação entre setores. Integrar cuidados significa construir um percurso coerente em torno da criança, com objetivos partilhados, continuidade, comunicação entre profissionais e participação efetiva da família.

Precisamos ainda de uma estratégia nacional de longo prazo para a infância, com coordenação entre Saúde, Educação e área Social, financiamento estável, metas mensuráveis e avaliação de impacto. Uma criança não pertence à Saúde num momento, à Educação noutro e à Segurança Social num terceiro. É a mesma criança, integrada numa família e numa comunidade.

3. A experiência da Fundação

Ao longo de 75 anos, a Fundação Bom Sucesso tem desenvolvido um trabalho de prevenção e promoção da saúde infantil, com especial atenção às famílias mais vulneráveis. Que aprendizagens desta experiência considera fundamentais para melhorar as respostas à primeira infância em Portugal?

Ao longo destes 75 anos, uma das principais aprendizagens da Fundação Bom Sucesso é que a proximidade, a relação e a continuidade fazem a diferença. A saúde constrói-se muito antes de surgir um diagnóstico. Acompanhar uma criança ao longo do tempo, conhecer a sua família e compreender o contexto em que cresce permite atuar de forma preventiva, identificar precocemente necessidades e apoiar os cuidadores nas diferentes etapas do desenvolvimento.

Uma segunda aprendizagem é que a criança tem de ser vista como um todo e não como um conjunto de problemas ou especialidades. Na Fundação, procuramos, por isso, desenvolver uma abordagem integrada, articulando áreas como a pediatria, enfermagem (a enfermeira de família como gestora de caso), psicologia, neurodesenvolvimento, terapia da fala, psicomotricidade, pedopsiquiatria, oftalmologia, medicina dentária, nutrição e outras. Mais importante do que reunir diferentes especialidades é fazê-las trabalhar em conjunto, comunicar entre si e construir uma resposta coerente em torno da criança e da família.

Outra ideia que a nossa experiência reforça todos os dias: na infância, o tempo conta. Chegar cedo significa promover a saúde, acompanhar melhor, escutar as famílias, capacitar, dialogar com os contextos educativos e respostas sociais e reconhecer atempadamente quando uma criança necessita de apoio. Uma intervenção no momento certo pode fazer uma diferença muito significativa no seu percurso de desenvolvimento.

Por fim, aprendemos que missão social, qualidade e sustentabilidade têm de caminhar juntas. Trabalhar com crianças e famílias, sobretudo em contextos de maior vulnerabilidade, implica uma responsabilidade acrescida de assegurar continuidade e equidade no acesso. A sustentabilidade não é, por isso, apenas uma questão financeira ou de gestão: é uma condição para cumprirmos a nossa missão ao longo do tempo e para que a situação económica de uma família não determine as oportunidades de saúde e desenvolvimento de uma criança.

4. O papel das fundações

A conferência coloca a colaboração no centro do debate. Que papel podem desempenhar as fundações na construção de respostas mais integradas para a infância e como podemos reforçar a cooperação entre fundações, Estado, comunidade científica e sociedade civil?

As fundações têm características que lhes permitem desempenhar um papel particularmente relevante: proximidade às comunidades, conhecimento das necessidades, flexibilidade, capacidade de mobilização e possibilidade de experimentar respostas inovadoras. Podem identificar lacunas, testar modelos, produzir conhecimento, formar profissionais, promover literacia e transformar a experiência no terreno em soluções que possam ser avaliadas, consolidadas e replicadas.

Contudo, as fundações não devem substituir o Estado nem transformar direitos fundamentais em respostas dependentes da disponibilidade de uma instituição. O seu papel é complementar, mobilizador e catalisador. Podem assumir risco na inovação social, aproximar parceiros que nem sempre trabalham em conjunto e ajudar a demonstrar, com evidência e avaliação, que determinadas respostas funcionam.

Para reforçar a cooperação, precisamos de objetivos comuns, responsabilidades claras, partilha de conhecimento e mecanismos transparentes de avaliação. Precisamos também de conhecer melhor o que já existe, porque Portugal dispõe de excelentes profissionais, projetos e instituições que merecem ser divulgados.

As fundações podem também fazer a ponte entre o conhecimento científico, a experiência no terreno e a decisão política, ajudando a transformar evidência e boas práticas em respostas concretas e sustentáveis. Na primeira infância, esta capacidade é particularmente importante: os resultados nem sempre são imediatos, mas aquilo que fazemos hoje pode influenciar todo o percurso de vida de uma criança.

5. Do debate à ação

O lema da conferência é “Inspirar. Informar. Agir.”. Que resultados concretos gostaria de ver nascer deste encontro e que desafio deixaria às restantes fundações portuguesas para que a primeira infância se torne uma verdadeira prioridade coletiva?

Gostaria que a conferência de 30 de outubro nos inspirasse, nos informasse e, sobretudo, nos levasse a agir em rede, com um propósito comum: colocar os Primeiros Anos no centro das prioridades coletivas.

Um dos objetivos é dar um novo impulso à Rede “Primeiros Anos”, reforçando ligações entre organizações e contribuindo para uma agenda comum, com prioridades claras, objetivos concretos e compromissos que tenham continuidade.

Queremos aproximar Saúde, Educação e Ação Social, dar visibilidade a boas práticas e transformar a evidência científica e a experiência de quem trabalha no terreno em propostas concretas. Isso implica identificar o que já funciona, criar canais regulares de colaboração, definir indicadores partilhados e acompanhar os resultados. Só assim passaremos de iniciativas relevantes, mas dispersas, para uma resposta verdadeiramente integrada.

O desafio que deixo às fundações portuguesas é que assumam a primeira infância como uma prioridade estratégica e transversal, e não apenas como uma área de apoio pontual. Cada fundação poderá contribuir de acordo com a sua missão, financiando respostas, promovendo investigação, apoiando a avaliação de impacto, capacitando organizações ou mobilizando redes e decisores.

Investir nos primeiros anos é uma escolha de justiça social, mas também de visão e de responsabilidade coletiva. Se conseguirmos colocar a criança no centro das decisões, avaliar o impacto do que fazemos e manter compromissos para além dos ciclos institucionais e políticos, estaremos não apenas a responder às necessidades de hoje, mas a construir uma sociedade mais saudável, mais equitativa e mais preparada para o futuro.


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