17 Julho 2026

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Fundação das Casas de Fronteira e Alorna

  1. Como um dos tesouros escondidos de Lisboa, o que distingue o Palácio Fronteira no património cultural português e que histórias considera essencial dar a conhecer às novas gerações?

A Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, instituída em 1989 por Dom Fernando Mascarenhas, 12.º Marquês de Fronteira, é uma instituição de utilidade pública que visa a conservação, o estudo e a divulgação do património histórico, artístico e documental das Casas de Fronteira e de Alorna. O generoso legado que o seu fundador entregou à Fundação não foi apenas o conjunto monumental do Palácio dos Marqueses de Fronteira e dos seus Jardins e Mata, em São Domingos de Benfica, mas também a Herdade do Condado da Torre, e ainda um notável conjunto de mobiliário, pintura, a biblioteca e arquivo histórico familiar, garantindo assim que este património  permaneceria unido, preservado e aberto à sociedade.

Neste contexto, o Palácio Fronteira distingue-se, desde logo, por ser um monumento vivo e uma obra de arte total: um espaço onde a monumentalidade da arquitectura – inspirada nas vilas renascentistas italianas e com base na tratadística de Sebastiano Serlio – coexiste, em perfeita harmonia, com a exuberância teatral das artes decorativas da casa e dos seus jardins.

Construída por Dom João Mascarenhas, 1.º Marquês de Fronteira, a casa, através do impressionante programa iconográfico dos seus azulejos e estuques, imortaliza a sua participação heroica nas Guerras da Restauração e como membro do Conselho do Rei, consagrando a memória, o prestígio e a profunda representatividade da família Mascarenhas na História de Portugal.

Para as novas gerações, a história mais essencial a transmitir é a da continuidade e da resiliência. Queremos mostrar que o património não é um cenário estático do passado, mas sim um reflexo vivo de decisões, identidades e encontros culturais que moldaram o nosso presente. Explicar como esta casa e os seus jardins nasceram de um manifesto de celebração após as Guerras da Restauração, sobreviveram ao Terramoto de 1755 e mantêm-se activos ao longo de mais de 350 anos, ajuda os mais jovens a compreender que a cultura se constrói e se protege todos os dias.

No jardim, em destaque, encontramos evocada a emblemática figura da Ocasião – que a família Mascarenhas historicamente sempre soube agarrar com audácia no momento certo. Na sua essência o Palácio Fronteira recorda-nos que, mesmo quando a funcionalidade dos espaços se transforma com o tempo, a memória íntima dos que aqui habitaram permanece, pois esta casa continua a viver na própria família e através dela.

 

  1. Como concilia a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna a preservação de um património histórico excecional com a abertura do espaço ao público e à comunidade?

Conciliar a conservação com a fruição pública é o equilíbrio mais desafiante e gratificante da nossa missão. Na Fundação, olhamos para a abertura ao público não como uma ameaça à integridade do monumento, mas sim como a sua razão de ser. O património só está verdadeiramente preservado se for partilhado, vivido e compreendido.

Para alcançar este equilíbrio, implementámos uma gestão rigorosa de fluxos de visita, garantindo que o desgaste material é minimizado, e fazemos uma manutenção permanente através da formação dos nossos funcionários e da adopção das melhores práticas, para além de levarmos a cabo obras de conservação e restauro sempre que necessário. Paralelamente, apostamos fortemente no envolvimento da comunidade local e em parcerias académicas. Acreditamos que a melhor forma de proteger o património é envolver a comunidade.

 

  1. Que papel podem os palácios históricos desempenhar hoje, para além da sua função patrimonial, enquanto espaços de cultura, conhecimento e participação cívica?

Hoje, os palácios históricos podem ser muito mais do que “casas-museu” contemplativas: podem continuar a funcionar como centros e plataformas de cultura, favorecendo a reflexão, o debate de ideias e o pensamento crítico.

No contexto actual, a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, assume-se como um ponto de encontro multidisciplinar. O Palácio Fronteira acolhe concertos, conferências, visitas e cursos que vão desde a história, às ciências sociais e a temas contemporâneos – como a agricultura, a sustentabilidade de casas históricas, a preservação do património e dos jardins históricos e a investigação académica. Ao abrir as portas à reflexão cívica, a casa actualiza a sua antiga função de espaço de debate humanista, tornando-se relevante para os desafios do século XXI.

 

  1. De que forma a programação cultural e educativa da Fundação contribui para tornar o Palácio Fronteira um espaço vivo, relevante e acessível a diferentes públicos?

A nossa programação é desenhada sob o princípio de que a cultura deve ser inclusiva, estimulante e acessível a todos. Através do nosso serviço educativo e das iniciativas culturais, procuramos abrir as portas para diferentes públicos: desde visitas escolares adaptadas aos currículos, visitas encenadas para famílias, até ciclos de conferências académicos, concertos na Sala das Batalhas e nos jardins, conferências e exposições.

Desta forma, desmistificamos a ideia de que um palácio é um espaço elitista. Longe de ser apenas um lugar de memória – que continua, de resto, a ser na sua plenitude -, a casa mantém-se hoje, tal como desde a sua construção e agora através da Fundação, como um espaço dinâmico de reunião, criação artística, desenvolvimento e investigação histórica e científica. É também um polo agregador onde outros projectos e entidades encontram a oportunidade de estabelecer pontes e parcerias estratégicas, permitindo a ambas as partes crescer, alcançar novos públicos e alargar o seu impacto social e cultural. Destacamos, a este título, a nossa frutuosa parceria com o Município de Ponte de Sor, estabelecida há 33 anos, assim como a mais recente colaboração com o Município de Gavião, através das quais realizamos regularmente exposições e conferências que levam a cultura e o conhecimento ao interior do País.

 

  1. Neste Dia Mundial dos Palácios, que mensagem gostaria de deixar sobre a responsabilidade coletiva de proteger e valorizar estes lugares de memória?

A mensagem fundamental é a de que o património não pertence ao passado: faz parte do nosso futuro. Proteger e valorizar espaços como o Palácio Fronteira não é uma tarefa exclusiva das fundações, do Estado ou dos especialistas; é um dever cívico partilhado por toda a sociedade.

Cada vez que visitamos um palácio, um jardim ou um sítio histórico, que apoiamos as suas actividades ou que partilhamos a sua história, estamos a garantir a sua sobrevivência. Estes lugares são a nossa memória colectiva ancorada no território. Num mundo em rápida transformação e muitas vezes efémero, os palácios históricos oferecem-nos uma herança cultural indispensável para sabermos quem somos e para onde queremos ir. Cuidar deste património que não é só nosso, mas que nos foi confiado, é um acto de responsabilidade e de entrega para as futuras gerações.

 

Maria Helena Mascarenhas

Vogal-Cultural

Fundação das Casas de Fronteira e Alorna

*Foto: Jorge Maio


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